Analise o arrebatamento pré-tribulacionista e seus contrapontos. Entenda a visão pós-tribulacionista à luz da Bíblia.

Em nossa série sobre escatologia, temos edificado nossa compreensão sobre a natureza do tempo, o Reino de Deus e a gloriosa Segunda Vinda de Cristo.
No artigo anterior, abordamos a realidade da Grande Tribulação e a posição da Igreja.
Agora, meus irmãos e irmãs em Jesus Cristo, vamos tratar de um dos pontos mais debatidos e, por vezes, mais divisivos dentro do cristianismo: as diferentes visões sobre o arrebatamento da Igreja, com um foco especial em desmistificar a perspectiva pré-tribulacionista e reafirmar nossa convicção pós-tribulacionista.
É comum que filmes, livros e até pregações populares apresentem o arrebatamento como um evento secreto, onde a Igreja é retirada da terra antes de qualquer sinal de tribulação.
Contudo, minha responsabilidade pastoral é guiá-los à Palavra de Deus, que é a única fonte infalível de verdade.
Com todo respeito e zelo pela unidade do Corpo de Cristo, mas com firmeza na verdade, vamos analisar o que as Escrituras realmente ensinam.
O livro "Three Views On The Rapture", que conta com a defesa do pós-tribulacionismo por Douglas J. Moo, é um excelente recurso para entendermos os argumentos subjacentes a cada posição.
I. Compreendendo a Visão Pré-Tribulacionista
A visão pré-tribulacionista postula que o arrebatamento da Igreja ocorrerá antes do início de um período de sete anos de Grande Tribulação.
Os defensores dessa visão geralmente argumentam que:
1.1. Deus não Destina a Igreja à Ira:
O principal argumento é que Deus não destinou a Igreja à ira, e a Grande Tribulação é um período de ira divina
1ª Tessalonicenses 5:9: "Porque Deus não nos designou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por meio de nosso Senhor Jesus Cristo".
Assim, a Igreja deve ser removida antes que essa ira seja derramada sobre o mundo.
1.2. O Arrebatamento como Evento Imimente e Secreto:
Essa visão enfatiza a iminência do arrebatamento, podendo ocorrer a qualquer momento ("sem sinais prévios"), e sua natureza secreta, onde apenas os crentes seriam retirados da terra, deixando os demais confusos.
1.3. A Distinção entre Israel e a Igreja:
Defensores dessa visão frequentemente fazem uma distinção rígida entre Israel e a Igreja no plano de Deus.
A Grande Tribulação seria o "tempo de angústia para Jacó" (Jeremias 30:7), ou seja, um período de juízo e purificação para Israel, e não para a Igreja, que já estaria com Cristo.
II. Contrapontos Bíblicos à Visão Pré-Tribulacionista (A Perspectiva Pós-Tribulacionista)
Minha posição e, creio, a posição mais biblicamente consistente, é a pós-tribulacionista.
Ela afirma que a Igreja permanecerá na terra durante a Grande Tribulação e será arrebatada no retorno glorioso de Cristo após esse período de sofrimento.
Vamos aos contrapontos, baseados na Palavra de Deus:
2.1. A Ira de Deus vs. a Tribulação:
É verdade que Deus não destinou a Igreja à Sua ira.
Contudo, a Grande Tribulação, embora seja um período de ira divina sobre o mundo, não significa que a Igreja não passará por sofrimentos nesse período.
É fundamental distinguir entre:
Ira de Deus: O julgamento divino final sobre o pecado e a incredulidade. Disso, os crentes são salvos por Cristo.
Romanos 5:9 (NAA): "Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira."
Tribulação/Perseguição: As aflições e sofrimentos que os crentes enfrentam neste mundo por causa de sua fé.
João 16:33: "No mundo vocês terão aflições."
A Igreja já experimenta tribulação ao longo da história, como vimos no artigo anterior.
Estar na tribulação não significa estar sob a ira de Deus.
Na verdade, em meio à tribulação, os crentes serão protegidos da ira divina.
A chuva cai sobre justos e injustos, mas os justos têm um guarda-chuva espiritual.
A "A Escatologia Pós-Tribulacionista: Estudo e Fundamentação" aprofunda essa distinção, enfatizando que a proteção de Deus é Sua presença e capacitação, e não um escape físico de todo sofrimento.
2.2. A Unidade da Vinda de Cristo e o Arrebatamento:
As Escrituras não apresentam duas vindas distintas para a Igreja (uma secreta para o arrebatamento e outra visível para o estabelecimento do Reino).
Pelo contrário, todos os textos sobre a volta de Cristo apontam para um único evento, que inclui o arrebatamento dos crentes.
Mateus 24:29-31 (NAA): Esta passagem é o cerne do argumento pós-tribulacionista. Jesus descreve eventos cósmicos de grande magnitude ("sol escurecerá, a lua não dará a sua luz, as estrelas cairão") que acontecem "logo depois da tribulação daqueles dias". SOMENTE DEPOIS desses sinais, Ele enviará "os seus anjos com grande clangor de trombeta, e reunirão os seus eleitos dos quatro ventos". A reunião dos eleitos é o arrebatamento, e ela acontece após a tribulação.
1 Tessalonicenses 4:16-17 (NAA): “porque o próprio Senhor, por ordem, com a voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.” A "trombeta de Deus" aqui é a mesma "última trombeta" de 1 Coríntios 15:52, que marca a ressurreição e a glorificação. Essa trombeta soa após os eventos da tribulação em Mateus 24. Não há duas trombetas ou dois arrebatamentos.
George Eldon Ladd em "Esperança Abençoada" dedica-se a mostrar que a esperança cristã é a aparição de Cristo em glória, e não um escape pré-tribulacionista. Ele harmoniza Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21 com 1 Tessalonicenses 4, mostrando que os sinais da vinda de Cristo são precedidos por tribulações.
2.3. A Igreja é o Alvo da Perseguição, Não do Escape:
O livro de Apocalipse, que trata dos eventos do fim, não mostra a Igreja ausente da terra durante a Grande Tribulação. Pelo contrário, mostra a Igreja perseguida e perseverante:
Apocalipse 7:14 (NAA): Descreve uma "grande multidão" que "são os que vêm da grande tribulação, que lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro." Isso indica que os crentes (a Igreja) estarão na Grande Tribulação.
Apocalipse 13:7 (NAA): Menciona a besta (o Anticristo) "foi-lhe permitido fazer guerra aos santos e vencê-los". Os "santos" aqui são a Igreja. Como o Anticristo pode fazer guerra e vencê-los se a Igreja já foi arrebatada? Isso só faz sentido se a Igreja estiver presente.
2.4. A Promessa de Preservação e Não de Remoção Total:
Como já citei, Jesus não orou para que Seus discípulos fossem tirados do mundo, mas para que fossem guardados do mal (João 17:15).
Isso é preservação em meio ao perigo, não remoção. Apocalipse 3:10, a promessa de ser "guardado da hora da provação", significa ser protegido dentro ou através dela, fortalecido para a perseverança.
John M. Frame, em sua "Systematic Theology", ao discutir a doutrina da perseverança dos santos, indiretamente reforça essa ideia: a fidelidade do crente é mantida por Deus, mesmo diante das maiores provações, até o fim.
III. A Relevância da Perspectiva Pós-Tribulacionista para o Crente
Compreender o arrebatamento à luz da visão pós-tribulacionista não é motivo para medo, mas para uma esperança mais robusta e uma fé mais madura.
3.1. Prepara para a Fidelidade e Resiliência:
Saber que podemos enfrentar tempos difíceis nos prepara para a perseverança.
Em vez de uma "mentalidade de escape", desenvolvemos uma "mentalidade de perseverança".
Isso nos torna mais resilientes, confiantes na presença e no poder de Deus em meio às provações. Stanley M. Horton, em "Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal", enfatiza a capacitação do Espírito para a vida cristã vitoriosa em qualquer circunstância.
3.2. Fortalece o Testemunho da Igreja:
A Igreja que permanece e testifica em meio à perseguição é um poderoso testemunho ao mundo.
A fidelidade dos crentes sob pressão glorifica a Deus e atrai outros para Cristo. Nenhuma tribulação pode deter o avanço do Evangelho (Mateus 24:14).
3.3. Uma Esperança Focada em Cristo, Não em Circunstâncias:
Nossa bem-aventurada esperança, como George Eldon Ladd nos lembra, é a pessoa de Jesus Cristo e Sua vinda gloriosa.
A escatologia pós-tribulacionista nos faz focar no Senhor que virá, e não na expectativa de uma fuga que possa não ser a realidade bíblica.
Isso nos dá uma esperança mais pura, que não vacila diante das dificuldades, mas se fortalece Nele.
Conclusão
A discussão sobre o arrebatamento é importante, mas deve sempre nos conduzir à verdade da Palavra de Deus.
Ao desmistificarmos a visão pré-tribulacionista e abraçarmos a perspectiva pós-tribulacionista, estamos nos alinhando com um ensino bíblico que não nega a tribulação, mas nos fortalece para ela.
Não devemos temer o que pode vir, pois nosso Senhor Jesus Cristo prometeu estar conosco até o fim dos dias (Mateus 28:20).
Nossa esperança não é em um escape, mas na Sua vinda gloriosa, quando Ele nos arrebatará e nos levará para o Seu Reino.
Que essa verdade nos impulsione à perseverança, à santidade e a um testemunho corajoso, aguardando com alegria a aparição do nosso Salvador. Maranata!
Para Aprofundar:
Amado crente, se você deseja se aprofundar ainda mais neste tema vital da escatologia e acompanhar outros estudos que preparei, convido-o a visitar meu canal no YouTube.
Lá, você encontrará uma playlist dedicada a este assunto.
Assista ao vídeo "6 - A Igreja na Tribulação: Fortalecidos para a Vitória." para complementar este estudo:
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Referências Bibliográficas:
A ESCATOLOGIA PÓS-TRIBULACIONISTA: Estudo e Fundamentação. [S. l.: Miquéias Tiago], [s.d.]. Material didático.
FRAME, John M. Systematic Theology: An Introduction To Christian Belief. Phillipsburg, N.J.: P&R Publishing, 2013.
HORTON, Stanley M. (Ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.
LADD, George Eldon. Esperança Abençoada: um estudo bíblico da segunda vinda de Jesus e do arrebatamento. Tradução de Regina Aranha. São Paulo: Shedd Publicações, 2016.
MOO, Douglas J. Posttribulation. In: ARCHER JR., Gleason L. et al. Three Views on the Rapture. [S. l.]: Zondervan Publishing House, [s.d.].


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